Em decorrência de pesquisas feitas no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, entrevista com o Historiador Cid Teixeira, artigos de jornais do país entre outras fontes de pesquisa, esse trabalho apresenta algumas informações - obtidas até então - sobre a trajetória do Professor Milton Santos antes, durante e após o golpe da ditadura militar no ano de 1964 no Brasil.
Instalado no país desde seu retorno da França, em 1958, após concluir o doutorado na Universidade de Estrasburgo, Milton Santos já havia criado o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da Bahia; passado pelo Jornal A Tarde e pela Empresa Gráfica da Bahia, além de ter escrito alguns livros, quando teve sua prisão decretada pelo então coronel Humberto Melo, responsável pelo 19º BC na época, localizado até hoje no bairro do Cabula.
Entretanto, a arbitrária prisão de Milton Santos na madrugada do dia 31 de Março para 1º de Abril de 1964, teve uma “explicação” devido a sua vida política e de militante estudantil e de interesse da população. A começar por sua intensa e significativa participação na candidatura da Bahia para concorrer à presidência da UNE, em 1946, com o candidato Methódio Coelho (ainda que o nome mais cogitado fosse o do próprio Milton Santos), segundo Geraldo Milton da Silveira. Também teve significativa participação na gestão da diretoria do comitê de Eduardo Gomes, candidato da UDN para presidência contra Eurico Gaspar Dutra – apesar de não ser filiado ao partido.
Com o passar dos anos, o professor Milton jamais deixou de militar em prol de uma melhoria para o país, através de seus livros e estudos, além de suas pesquisas no Laboratório de Geomorfologia; nunca foi filiado a partido político, mas tinha amizades com pessoas da esquerda, inclusive seu irmão Nailton que era militante do PC do B na época. O fato de no ano de 1961 o então presidente Jânio Quadros ter-lhe nomeado como seu representante na Bahia, estreitou-se os laços com a vida política do país. Apesar de ter perdido seu cargo com a renúncia de Jânio, continuou representando o governo brasileiro durante a presidência de João Goulart, que fora sucessor do presidente que havia renunciado, e para os de extrema direita, a nova presidência representava uma ameaça de um possível socialismo no país; sendo assim, João Goulart é deposto e instaura-se uma ditadura militar.
Todavia, por ser amigo de personagens da política e o seu envolvimento com pessoas da esquerda, fez com que ele passasse a ser uma ameaça para o governo ditatorial. No entanto, segundo Cid Teixeira, ele foi preso por que os militares precisavam achar culpados. Diante das palavras da professora Mª Auxiliadora da Silva, para um texto disponível na internet, sabendo que Milton corria perigo, o cônsul honorário da França na época, professor Van der Haegen, teria convidado o mesmo para abrigar-se em sua residência, mas de nada adiantou. Com isso, Milton Santos foi preso por um ex-capitão do Exército por nome de Victor Hugo, reformado por “insanidade mental”, encarregado de “missões especiais” na Bahia, no 10º andar do edifício Napoli, bem em frente ao Farol da Barra. Ainda segundo Sebastião Nery, ele encontrou Milton na prisão, sereno, sorridente e sábio.
Apesar das informações serem desencontradas, sabe-se que o professor passou pelos quartéis de Salvador até ser exilado. O 19º BC e o Forte do Barbalho foram destinos confirmados por amigos de Milton, como o professor Cid Teixeira que o visitou algumas vezes no Forte do Barbalho que era quartel do exército na época; e o 19º BC, onde o professor Geraldo Milton da Silveira tentou vê-lo, mas foi impedido.
Quanto à “soltura” do professor em virtude de ser levado ao exílio, há contradições. Na maioria das informações recolhidas sobre o fato, Milton Santos teria sido solto por complicações em sua saúde, mas, segundo Sebastião Nery, na noite de véspera de São João, Milton passou mal sim, mas foi liberado por causa de apelos de professores – inclusive o próprio Van der Haegen, que serviu de intermediário entre o governo francês e o coronel Humberto Melo nas negociações, segundo a professora Mª Auxiliadora - e intelectuais franceses, colegas de Estrasburgo, ao historiador francês Fernand Braudel que tinha forte influência na embaixada francesa.
Contudo, após sua libertação da prisão e sua passagem pelo hospital, o professor Milton Santos ficou exilado durante 13 anos, onde passou por diversos países estudando cada cultura e lecionando em universidades renomadas e conhecidas por todo o mundo, mas encontrou seu “lar” na França, casando-se novamente com dona Marie Hélene.
Referência Bibliográfica
Correio Braziliense. Página 4 Brasília-DF, 1º deJulho de 2001. Histórias de Sebastião Nery.
SILVA, M. A. ; DIAS, Clímaco ; TOLEDO JUNIOR, Rubens de . Apresentação. In: Maria Auxiliadora da Silva; Clímaco Dias; Rubens de Toledo Junior. (Org.). Encontro com o Pensamento de Milton Santos. 1 ed. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 2005.
Revista Caros Amigos. Coleção Caros Amigos. Grandes Cientistas Brasileiros. Fascículo 3. Editora Casa Amarela – São Paulo. Pgs 67-80.
Entrevista cedida pelo professor e historiador Cid Teixeira no dia 26 de Abril de 2010.
Disponível em: http://devel.fpabramo.org.br/conteudo/biografia-do-milton-santos. Acesso em 05 de Julho de 2010.
* Texto elaborado por Jordana Feitosa de Oliveira. Graduanda do curso de Comunicação Social - com habilitação em Produção da Comunicação e Cultura - pela Universidade Federal da Bahia e Integrante do Grupo de Pesquisa Permanecer Milton Santos.